8 jun 2009

Carnaval do Rio de Janeiro: O patrocinador dá o tom

Autor: Tiago Xavier | Categoria: Mercado

Escola de Samba 

O carnaval foi vendido? Partindo do princípio que os custos das escolas de samba estão cada vez mais altos e que é praticamente impossível uma escola de samba desfilar sem patrocínio de empresas privadas, poderíamos dizer que sim. “Se a escola não tiver patrocínio, há muita dificuldade para desfilar” disse Paulo Vianna, presidente da Mocidade Independente de Padre Miguel. É notório por parte daqueles que acompanham o carnaval há certo tempo, que essa festa não é mais a mesma. O carnaval, principal festa popular brasileira, não só desperta à admiração dos espectadores, como também faz aguçar os interesses comerciais em torno do seu sucesso. De acordo com Noca da Portela, 72 anos, “uma escola de samba precisa de, no mínimo, R$ 4 milhões para desfilar e fazer um carnaval bonito…” diante desse quadro não podemos deixar de concordar com Hirani Araújo, historiador da liga independente das escolas de samba, que diz: “O patrocínio é um mal que é para o bem. Não tem outra saída”. Poucas são as escolas que não conseguiram patrocínio para o desfile desse ano.

Partindo da análise que o patrocínio é algo indispensável para o carnaval, surge a pergunta: Quais as conseqüências da inserção do carnaval em uma lógica de mercado? A principal conseqüência dessa inserção é a perca da autonomia das escolas de samba. Um exemplo prático é a formulação do samba-enredo de acordo com os interesses do patrocinador. Joãozinho Trinta, grande artista do samba, ao ser perguntado sobre o que ele faria para o carnaval respondeu: “Não sei. Depende para onde eles venderam.” A Grande Rio, por exemplo, foi patrocinada pela Nestlé, seu tema foi alimentação (ramo de atuação da empresa patrocinadora) e em seu samba-enredo foram “encaixadas” expressões que caracterizam produtos da Nestlé a fim de agradar o patrocinador. Isso não é particular a essa escola, fatos semelhantes ocorreram com a Mocidade Independente de Padre Miguel, Mangueira, Portela e também com escolas de samba de São Paulo como Camisa Verde e Branco, Leandro de Itaquera e Imperador do Ipiranga.

A criatividade, característica peculiar do carnaval, não desaparece por conta dos interesses, entretanto ela se adequa a eles. “A criatividade depende hoje de quem paga”, comentou Fernando Pamplona, carnavalesco que foi afastado por resistir às mudanças ocorridas por conta da lógica de mercado.

Se por um lado o dinheiro que os patrocinadores investem no carnaval torna esta festa mais sofisticada e mais bonita, por outro lado este dinheiro coloca em cheque a sua originalidade, pois nota-se que o carnaval perde sua identidade quando se torna uma festa voltada para o mercado.

Os mais informados, ou os mais atualizados, vão notar que as informações acima não são pertinentes ao carnaval de 2009. Isso foi proposital, esse texto eu preparei em 2005 e refere-se ao carnaval daquele ano, mas ao analisar os desfiles das escolas de samba em 2009 (parabéns ao Salgueiro), que por sinal achei belíssimo, vi que se trata de um texto atual e portanto disponibilizei para vocês! A lógica de mercado está presente em todos os locais, as empresas não perdem a oportunidade de vender suas marcas!

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